DE SATÃZINHOS À TOA E OUTRAS BOBAGENS

O deputado federal Jair Bolsonaro, do PSL, candidato à Presidência da República (Adriano Machado/Reuters)


Paulo Afonso Linhares (*)


Mesmo ao seu tempo, nada foi tão anacrônico que o Império brasileiro. Enquanto todas as colônias espanholas se tornaram repúblicas, o Brasil implantou uma monarquia tropical sustentada pelas oligarquias rurais, cujos membros mais proeminentes foram agraciados com título nobiliárquicos de duque, marquês, conde, visconde e barão. Mais estranho é imaginar monarquia nestas paragens, sem tradição e com tantas contradições, sobretudo, essa invenção da nobreza jaboticaba.

Neste momento, confrontam-se um Brasil que a maior parte da população deseja, e um outro, bizarro, canhestro e autoritário que querem para nós. À parte do besteirol disseminado pela Rede Globo, nessa campanha “do Brasil que queremos”, mesmo porque o modo de expressar a vontade da nação não há de ser através dos barões da grande mídia conservadora, nem tampouco dos ‘tribunais’ tresloucados das redes sociais, mas, através do voto direto, universal e secreto, em processo eleitoral previsto em lei. 

Por isto, causou espanto saber que Jair Bolsonaro, o ‘messias’ de desconcertadas legiões, depois de convidar, sem sucesso, generais, almirantes e brigadeiros para serem candidatos a vice-presidente da República, em sua chapa, teria fixado-se na ‘musa’ do impeachment, a professora de direito da religião Janaína Paschoal, como sua “partner” na corrida presidencial. Depois de trejeitos tipicamente mussolinescos, no discurso proferido na convenção que ungiu a candidatura de Bolsonaro, Janaína “puxou o freio de mão” e não bateu o martelo como candidata.

Em face das dificuldades de Janaína - conhecida por algumas pessoas como “a Louca”, o mesmo epíteto da rainha D. Maria I, a que mandou esquartejar Tiradentes - em consultar, nesse momento, o Oráculo de Delfos, pois uns trombadinhas resolveram tocar fogo na velha Grécia, o “Messias” resolveu escolher um novo candidato a vice-presidente. Assim o “Mito”, como alguns miolos moles chamam Bolsonaro, para sua épica jornada eleitoral tenta atrair como parceiro de chapa nada mais nada menos que a figura de Dom Luiz Gastão Maria José Pio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança, nascido em Mandelieu (hoje, Mandelieu-la-Napoule), França, em 6 de junho de 1938, príncipe de Orléans e Bragança e chefe da Casa Imperial do Brasil. Com o pouco tempo de Bolsonaro no horário eleitoral, esse nome comprido do pretenso candidato a vice-presidente certamente se revelará um grande problema…

Dom Luiz Gastão Maria José Pio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança 


Voilá! Que grande ‘acuidade’ essa de Jair Bolsonaro! Daí ser prudente “já ir” se acostumando, segundo expressão dos camisas-pardas bolsonarianos. De algum modo exumar essas múmias da monarquia tupiniquim em chão grosseiramente republicano, na pessoa de Sua Majestade Imperial, Dom Luiz I, “Por Graça de Deus, e Unânime Aclamação dos Povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil”, não deixa de ser um fato novo no grotesco cenário da política brasileira e uma genuína ‘vassourada’ essa tentativa de levar ao Palácio do Planalto, republicano e laico, esse que é um militante destacado da seita ultradireitista “Tradição, Família e Propriedade” (TFP). 

Quando ninguém imaginava que isso pudesse ocorrer, eis que poderá cristalizar-se uma chapa que reúne o capitão Bolsonaro e o indefectível Dom Luiz I, bisneto da princesa Isabel e do conde D’Eu, além de tataraneto de d. Pedro II, o último imperador a governar o Brasil, representante do “Ramo de Vassouras” e destacado templário da TFP, na pugna para substituir o dracúleo Michel Temer na Presidência da República. Ressalte-se que a herança monárquica brasileira está dividida em duas vertentes da família Orléans e Bragança, banida do poder com a proclamação da República, em 1889 - o ramo de Vassouras e o ramo de Petrópolis - cada qual a reivindicar o direito de sucessão imperial e não se entendem. 

Contados os votos da eleição presidencial de 2018, imagine-se o pesadelo do capitão Jair “Messias” Bolsonaro aboletado na curul presidencial e, desejando substituí-lo nas suas faltas e impedimentos que a vida dá, o inefável Dom Luiz I? No mínimo, teremos que repensar aquela bela e não menos ilusória assertiva de Stefan Zweig, o escritor austríaco de origem judaica que, num delírio tropicalista, disse que este Brasil, “de mãe preta e pai João”, poderia ser o “país do futuro”… 

O pobre e bom Zweig, de nossas alentadas e indormidas leituras juvenis, autoimolado no altar da tardia descrença nestes “tristes trópicos” sempre fadados ao retrocesso e às humanas impossibilidades de seguir adiante, nestes brasis que surpreendem e a todos abatem.

No entanto, a despeito de todos os desencantos, lá bem fundo repousa a esperança, aquela réstia luminosa, solitária e inatingível pelo mal banalizado dos tempos que correm, a partir das ideias-força da liberdade, da solidariedade e do respeito às diferenças entre as pessoas, que se fazem raízes da convivência harmônica dos povos. É este o rumo que deve ser buscado para o Brasil. Longe das falsas ilusões e, tomando por empréstimo uma expressão de Gilberto Amado (Depois da política, p. 209), diante das peças de mau gosto que pode pregar, no quintal do Brasil, algum “anjo errado, malcaído, satãzinho à toa. Luciferzinho de bobagem!” Vade retro, mané!

* Paulo Afonso Linhares, advogado militante, professor e diretor-presidente - Rádio Difusora de Mossoró S.A e FM Costa Branca.


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