O QUE AS BOMBAS ENVIADAS A ADVERSÁRIOS DE TRUMP ENSINAM AO BRASIL


Barack Obama, Hillary Clinton e a CNN receberiam, em sua correspondência, um envelope com uma bomba. O FBI confirma que bombas adicionais também foram mandadas para John Brennan, antigo diretor da CIA, conhecido por ser muito crítico ao presidente Donald Trump, Maxine Waters, congressista do Partido Democrata da Califórnia, e Eric Holder, antigo procurador-Geral da República sob o governo Obama. Não se sabe quem os enviou, sua posição ideológica, partido de preferência ou seu interesse.

Isso acontece enquanto o país se prepara para as chamadas Midterm Elections,no próximo 6 de novembro, quando eleitores vão às urnas escolher os seus representantes para o Congresso.

Em um comício político na noite desta quarta (24), em Wisconsin, um dos estados do chamado Rust Belt (Cinturão da Ferrugem) que decidiu as últimas eleições presidenciais, Trump disse que a mídia precisa ser mais responsável e adotar um tom de maior civilidade. Segundo ele, a hostilidade vivida hoje no país é decorrência dos “falsos ataques.”

A tática de culpar seus adversários por posturas e atos que ele mesmo pratica é a marca registrada do modus operandi de Trump. Desde que foi lançado ao centro do debate político nos últimos anos, o presidente vem acumulando demonstrações de incivilidade que deixam até os seus mais fervorosos apoiadores constrangidos. Ele já fez chacota com um repórter com deficiência física, disse que os mexicanos que vêm para os EUA são estupradores, frequentemente dá apelidos jocosos e racistas a quem o enfrenta, como “Pocahontas”, “imbecil”, “fraco”, “esquisito” e “mole”.

Enquanto alguns vão dizer que tudo volta ao normal porque nenhuma bomba de fato explodiu ou sequer chegou ao seu destinatário final, é preciso entender que atos desse tipo possuem consequências para além de sua letalidade. Eles buscam intimidar e calar os adversários, apostando na violência como meio de interromper a política.

Em seu último filme, Farenheit 11/9, Michael Moore diz que muitos eleitores foram às urnas em 2016 e votaram em Trump como forma de “atirar um coquetel Molotov nas velhas instituições políticas.” E de fato sobravam razões para se estar insatisfeito com os representantes da democracia liberal estadunidense. Quando o discurso de candidatos como Trump, contudo, instrumentaliza as frustrações com a política institucional para criar uma plataforma eleitoral baseada na violência contra adversários e na intolerância contra minorias, o “coquetel Molotov” simbólico facilmente se transforma numa bomba que explode e mata de verdade.

Qualquer semelhança com o Brasil, definitivamente, não é coincidência.

(Leia íntegra do artigo de Mayra Cotta, advogada e pesquisadora do Departamento de Política da New School for Social Research em Nova York, exclusivo para o blog do Sakamoto.)

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.