SAÍDA DE MÉDICOS CUBANOS PODE GERAR PRIMEIRA CRISE SOCIAL DE BOLSONARO


Por Leonardo Sakamoto

Com a saída não-planejada dos profissionais cubanos do programa Mais Médicos, Jair Bolsonaro vê a primeira grande crise social de seu governo - que ainda nem começou - entrar em gestação.

Ele tem o direito, como presidente eleito, de propor mudanças no acordo com o governo de Cuba e, quando assumir, atuar por sua revogação. Mas, na política, declarações e ações que não pesam as consequências sociais e econômicas têm um custo. Que, neste caso, será pago, sem aviso prévio, por 30 milhões de brasileiros que se acostumaram a ter um médico à sua disposição. E, sinceramente, não se importam se ele fala português ou "portunhol".

O governo da ilha avisou que está retirando seus quase 8,4 mil médicos do Brasil (mais de 45% do Mais Médicos) até o final do ano por conta de declarações de Bolsonaro que considerou agressivas. A saída, inesperada, acendeu a luz amarela em municípios e Estados que dependem do programa para garantir um mínimo de dignidade à população, provocando pânico em prefeitos.

O uso de estrangeiros no Mais Médicos é emergencial, não era para durar indefinidamente, mas isso não aconteceu e não há nada pronto para substitui-lo no curto prazo.

O presidente e o autor deste texto já ficaram internados em hospitais públicos, mas também recorrem ao serviço de bons hospitais particulares. A saída dos cubanos não será, portanto, sentida por nós ou por nossa classe social, mas pelas pessoas que não tinham acesso a médicos e agora têm. Ao final, diante da reclamação dessa população mais pobre, que, em sua maioria, não foi seu eleitorado, mas o de seu adversário, talvez Bolsonaro tenha que fazer o impensável: pedir à Cuba para aceitar uma transição programada.

O problema é que o novo chanceler, anunciado nesta quarta, fã de Donald Trump, ao defender que “o globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”, talvez não seja a melhor pessoa para negociar isso com a ditadura cubana.


  1. (Leia a íntegra do texto, que inclui uma crítica deste autor à situação trabalhista dos médicos cubanos, no post do blog: https://bit.ly/2K9xF7i)

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