Trinetos da mulher do padre


Passados sete séculos da sua instituição, no Concílio de Latrão em 1123, o celibato ainda era moda que não chegara aos sertões paraibanos.

Cumpridor  das sagradas escrituras,  o Padre José Antônio Marques da Silva Guimarães (1806-1888), começou sua vida eclesiástica cometendo um pecado venial.

Logo perdoado sem cumprir penitência.

No Recife, furtou uma distinta moça de família e posses, Maria da Conceição Gomes Mariz.

Em lombo de burro, levou-a para 500 kms de distância do falatório da granfinagem pernambucana.

Destino, Sousa.

Onde nasceu, casava, casou e batizou, depois de ordenado padre pela Ordem de São Bento.

Após receber léguas de baixio no Rio do Peixe, como dote de um casamento de noivos em segundas núpcias, foi deputado provincial por vários mandatos, presidente da assembléia e prefeito da cidade, sem jamais  esquecer o preceito bíblico.

Ao filho que deixara na Província do Rio Grande, em suas andanças pela  Barriguda (depois conhecida por Alexandria), deu mais 14 irmãos, nascidos da esposa legítima.

No cultivo de uma frondosa árvore genealógica, há de se regar bem e procurar nomes interessantes, nos ramos que se multiplicam.

Muitos exageram na poda, como se a honra familiar pudesse ser comprometida por algum galho seco.

Do vigário casado de Sousa como criou fama, descendem diretamente pessoas influentes que alcançaram altos postos na política dos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte.

Dois bisnetos foram governadores, João Agripino e Tarcísio Maia, irmãos.

Dois trinetos ocuparam os mesmos cargos. Antônio Mariz e José Agripino, primos.

Portadores da mesma genética preenchem uma extensa lista de senadores, deputados, prefeitos, industriais, comerciantes, médicos, professores e profissionais liberais.

O cantor e compositor Zé Ramalho, 70 anos, é da semente que brotou em Brejo do Cruz.

No livro “Nos Caminhos do Vigário José Antônio”, 2006, Emmanoel Rocha Carvalho, faz uma longínqua conexão familiar com São Borja, no extremo sul.

João Belchior Marques Goulart, o ex-presidente Jango, descendeu diretamente da família nordestina, bisneto que era de um irmão do padre da Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios.

Sem nunca ter os votos suspensos pelo Vaticano, a Igreja só registra em sua  história oficial, os 48 anos de pároco.

As primeiras gerações tentaram esconder a memória do casamento recebido e aceito naturalmente pelos que desbravaram os sertões há 150 anos.

Num tempo em que a mulher do padre ainda fica longe das sacristias, são os trinetos do vigário casado que relembram e comemoram sua memória.

NR

Cônjuge de uma trineta do padre, o autor do texto entra quase que de gaiato nesta estória.



Com conteúdo TL

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