É enganoso afirmar que cidade no RN zerou óbitos e internações por covid-19 com ‘tratamento precoce’


Postagens nas redes sociais afirmam que Maxaranguape, cidade no Rio Grande do Norte, não registrou nenhuma morte pela covid-19 e não teve nenhum caso em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) desde meados de novembro de 2020, em razão do chamado “tratamento precoce” — kit com remédios sem eficácia comprovada contra o coronavírus, como a ivermectina. A informação é enganosa. Recentemente, o município registrou um novo óbito e duas hospitalizações em decorrência da covid-19.

Dados divulgados no Facebook da prefeitura de Maxaranguape mostram que entre os dias 18 e 20 de março de 2021 uma pessoa morreu pela covid-19, totalizando quatro óbitos durante a pandemia. No dia 24 de março, o mesmo levantamento mostrou que o município registrou duas novas hospitalizações.

Maxaranguape tem cerca de 12.500 moradores, de acordo com o IBGE. A taxa de óbitos por covid-19 a cada 100 mil habitantes é de 32, segundo a plataforma SUS Analítico. Há exemplos de outras cidades com tamanho de população parecido no Rio Grande do Norte e índices de mortalidade pelo coronavírus semelhantes, como Januário Cicco (39/100 mil), Santana dos Matos (39/100 mil), Cerro Corrá (36/100 mil), Lajes (35) e Pedro Velho (27/100 mil). A taxa na capital do Estado, Natal, é de 132 óbitos por covid-19 a cada 100 mil habitantes.

Os dados sobre a pandemia no município têm sido distorcidos nas redes sociais e compartilhados em páginas negacionistas após uma fala do prefeito de Maxaranguape, Luís Eduardo (PSDB), no programa de rádio Repórter 98. Ele afirmou que o uso do “tratamento precoce” e de outras estratégias no combate à pandemia, como barreiras sanitárias e fiscalização, contribuíram para que o município não entrasse em colapso. Durante a entrevista, o prefeito confirmou que adquiriu 15 mil comprimidos de ivermectina para a população e alegou que o remédio é fornecido somente com prescrição médica. 


Na ocasião da entrevista (dia 12 de março), de fato não havia nenhum novo registro de morte na cidade. No entanto, não há nenhum medicamento que evite o contágio pela covid-19 ou que possa curar a doença, segundo autoridades de saúde internacionais. Para o médico infectologista Adelino de Melo, diretor científico do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, não é possível atribuir a ausência de óbitos à distribuição de ivermectina para a população. 

“Existem diversos fatores que podem contribuir para evolução favorável ou desfavorável em uma determinada doença e isso ocorre também com a covid-19″, explicou o médico. “A relação de causa e efeito não pode ser comprovada de forma observacional. O risco desse tipo de intervenção é dar falsa sensação de proteção e com isso diminuir o rigor com as medidas de prevenção sabidamente efetivas  como máscara e distanciamento social”. 

A Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Norte afirmou ao Estadão Verifica que o fato de não terem sido registrados óbitos em Maxaranguape até o dia 12 de março “pode ser resultado de uma série de fatores e seria necessária uma investigação epidemiológica detalhada para poder avaliar”.

Adelino de Melo também chama atenção para a possibilidade de ocorrência de efeitos colaterais pelo uso indiscriminado de ivermectina, como a toxicidade hepática. Em São Paulo, o uso de medicamentos sem eficácia contra a covid-19 levou cinco pacientes à fila do transplante de fígado. De acordo com médicos ouvidos pelo Estadão, o chamado “kit covid” também está sendo apontado como causa de ao menos três mortes por hepatite causada por remédios.

Em janeiro, o Estadão Verifica apresentou em uma outra checagem sobre “tratamento precoce” uma nota conjunta da Associação Médica Brasileira (AMB) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) divulgada no mesmo mês. O documento aponta que “atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”. 

VEJA A NOTA CONJUNTA

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Norte disse que “sobre os medicamentos utilizados para tratamento de pacientes em UTI Covid, a gestão estadual adquire constantemente medicamentos cientificamente comprovados para o tratamento de pacientes internados na rede pública. Através da Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat), a Secretaria acompanha diariamente os estoques de medicamentos necessários ao atendimento em UTIs”. 

Atualmente, o número de óbitos confirmados em todo o Rio Grande do Norte é de 4.629, sendo 4 em Maxaranguape. O Estado registrou 199 mil casos confirmados para contágio pelo novo coronavírus, sendo 309 no município.

A Prefeitura de Maxaranguape foi contactada, mas não respondeu.

O Estadão Verifica já checou outros conteúdos sobre cidades que teriam “zerado” o número de óbitos e casos de covid-19 graças ao chamado “tratamento precoce”: São Lourenço (MG), Rancho Queimado (SC), Búzios (RJ), Porto Feliz (SP) e São Pedro dos Crentes (MA).

O portal Boatos.org também publicou uma checagem sobre Maxaranguape.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.


Com conteúdo Estadão

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