BOLSONARO DEIXARÁ FILHO SER "SACRIFICADO" SE A POLÊMICA AFETAR O GOVERNO?


Por Leonardo Sakamoto

"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará." A passagem bíblica preferida do presidente da República cabe como uma luva em um momento em que tanto seu filho Flávio Bolsonaro quanto Fabrício Queiroz evitam entregar à sociedade "explicações plausíveis" sobre as "movimentações atípicas" detectadas pelo Coaf envolvendo os dois. E, com isso, vão crescendo as suspeitas de que o parlamentar ficava com parte dos salários de seus assessores, usando Queiroz como laranja.

Nesse ponto, concordo com João, capítulo 8, versículo 32, passagem bíblica exaustivamente usada por Jair em uma campanha eleitoral que se vendeu como antissistêmica, prometendo mudar tudo o que está aí, inclusive o comportamento de representantes políticos e sua falta de transparência com a coisa pública.

Porque não adianta fazer um estardalhaço com dados recauchutados sobre empréstimos do BNDES a grandes empresas (muitos de nós, jornalistas, já havíamos usado aquelas informações em reportagens nos últimos anos pois já eram públicas), batendo no peito que agora tudo vai ser diferente, quando uma pessoa de sua maior confiança e que deve assumir parte de sua articulação no Senado Federal evita uma simples explicação aos eleitorado. Para um governo que acredita no poder transformador da "verdade", é incompreensível que ela seja jogada sistematicamente para baixo do tapete desde o início de dezembro, quando o caso foi divulgado.

O caso de Flávio não traria maiores problemas à gestão de seu pai se o próprio não tivesse trazido os filhos para perto do núcleo de sua campanha e, agora, de sua administração, mesmo sem cargos. Mas trouxe e, portanto, é responsável por suas atitudes. Sem contar que o presidente ainda está ligado a toda confusão por conta da história do empréstimo que fez a Queiroz e que também precisa ser melhor explicado.

O problema é que, se algo for comprovado pelo MP-RJ, fica a dúvida se Bolsonaro será capaz de cortar na própria carne. Daí, vale outra passagem bíblica. Em Gênesis 22:2, Deus mandou o patriarca Abrãao tomar seu único filho até então, Isaque, e passar a faca no mancebo, em sacrifício. Aos 45 do segundo tempo, mandou um anjo dizer que tava tudo beleza, que ele já tinha provado seu valor e mandou um cordeiro para substitui-lo no kebab.

Caso sejam constatadas irregularidades ou, pior, caso o silêncio continue reinando à medida em que evidências se avolumem, não é descartável a possibilidade de Flávio ter que ir para o sacrifício a fim de salvar o juramento de seu pai. Não com Deus, mas com os cidadãos. Daí tudo vai depender da fé de Bolsonaro com a coisa pública.

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